domingo, 9 de março de 2014

(sem título)


os pássaros cambaleiam nos telhados
arrastam as asas quebradas que lhes magoámos em louvor

acendemos as candeias da agonia
com o sacrifício de todas aves
nada se ergue no céu agora
reunimos tudo cá em baixo
e as últimas que ainda habitam os telhados
hão-de despenhar-se aqui
na última tentativa de voo
e arrancar-lhes-emos as patas

a chama dos seus olhinhos de ave
extinguir-se-á muito depois

alimentar-nos-emos dos seus guinchos histéricos
celebraremos a sua angústia
pois parecerá maior que a nossa

santificá-las-emos

durante esses dias, a vida será fácil
mas quando a última ave tombar
estaremos vazios novamente

e então talvez nos lembremos
dos que habitam os oceanos, os mares, os rios e as lagoas
e talvez engendremos uma forma
de secar todas as águas

como é belo um holocausto!
quantos anos de planeamento!
quanta distracção maravilhosa!

mas então deixaremos de ter o que planear
pois os animais do chão foram mortos há muito

e como é tão difícil olharmos os nossos próprios olhos
restar-nos-á caçarmo-nos e comermo-nos uns aos outros
por não termos mais com que nos distraírmos

– e o último paraíso ficará por construir


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