domingo, 24 de novembro de 2013

(sem título)


e se as coisas implodissem no céu?
e se os monstros fossem meninas assustadas nos berços?
e se o homem-máquina arrancasse as próprias engrenagens e sangrasse o seu óleo?
e se a vida se exprimisse no maquinismo dos eléctricos?
nos carris metálicos que não terminam?
e se a palavra fosse apenas a paragem em Belém e não a vida?
o que importa é o sol a bater no metal
o caminho percorrido vezes e vezes sem conta
a saída dos passageiros e o regresso a casa para a passagem da noite
há um percurso secreto que só o homem-eléctrico conhece
só ele o percorre
só ele cumpre essa função
e se apenas ele soubesse o segredo das coisas?
e se apenas o seu trabalho fosse fundamental à passagem da vida?
e se deus vivesse nos seus carris que ninguém vê?
e se deus zelasse pelos seus passageiros invisíveis?
e se o seu triunfo fosse esse?
enlouquecer
criar um coração de metal
percorrer o caminho das máquinas
sentir como elas
dormir quando elas dormem
amá-las
e morrer


1 comentário:

Dylluan disse...

Uma vida perdida que agora começa a exprimir-se através de ti. Foste a grande herdeira, a depositária, mas ninguém sabe. Quando esvaziaram aquela casa, levaram a aparência e deixaram para trás a essência, essa coube-te a ti e ao teu amigo.
Belo poema!

sereias em alto mar